domingo, 6 de novembro de 2011

Retorcidos Sonhos

Descalça andava a confiança do forasteiro.

Numa corrida com a sorte
Para trás ficara
Antes mesmo do tiro inicial

Depois de tantas quedas
Pular barreiras era difícil
Transpor, impossível

Decidiu mudar de lado
Deu as mãos ao azar
E seguiu tortuosamente em linha reta
Até a última curva de sua vida.

Antes da derradeira virada
Lembrou-se do que havia catado
Em muitas das suas paradas:
Eram objetos, palavras e carinho.
Eram beijos, moedas e desejos.
Eram sonhos retorcidos, mas eram sonhos.

Estes dividiam espaço na poeira do seu bolso
De que matéria eram feitos?
Não se sabia.
Nunca se soube.
Mas sabe-se que sofriam de insônia. Isso sim.

Para o seu bem ainda estavam acordados
Mesmo depois de tudo que lhe ocorrera
Seus sonhos sofriam de insônia
Assim como a sua vontade
Como os seus desejos
Como o seu ímpeto que parecia deixar a latência de lado.

Eram retorcidos, empoeirados, quase esquecidos...
... Mas eram sonhos.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Menino

Era menino

O tempo envelhecia
As folhas caíam

Era menino

As ideias mudavam
Fotos amarelavam
E desde menino aprendera as verdades
Que o vento da infância nunca ousou levar

E agora, que já era um menino
Sabia a quem devia agradecer
A quem devia contemplar
A quem devia, pelo menos mais uma vez
Fitar com o seu olhar.

Mesmo acostumado a ver com os olhos das flores
Decidiu mais uma vez mergulhar em sua poesia.

O menino, que desde menino, aprendera a amar
Encantou-se, como se fosse a primeira vez
Por aquele tão velho luar.

Já estava horas naquela posição
Anos até se tornar um menino.
E depois de tanto sentir
Percebeu que o principal brilho não vinha dali.

A sua então adorada refletia
Contemplava o verdadeiro luar.
Curioso, o agora menino vestiu-se de destemido
E foi um outro luar procurar

Despiu-se da antiga roupa
logo que avistou ao longe um pequeno palco
Num ato de pura sensibilidade
Percebeu de onde brotara a sua inspiração
Nos passos da misteriosa lua
Que pintava de colorido o tablado com as suas sapatilhas.

A deslizar, o menino não tinha mais dúvidas
Era sob aquele luar que ele se sentia em casa
Sensação gostosa, íntima.
Tocou piano enquanto a sua lua dançava

Assim ficaram.
E juntos tornaram-se meninos.




quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Numa Vale Escura Esqueci Meu Coração

Numa vala escura esqueci meu coração
No lugar, ficou apenas um buraco
Sentimentos foram abocanhados
Compaixões desidratadas
E o amor, se mudou...
[Pois ali, já não dava]

Nesse deserto de sensações
Minha vida tornou-se opaca
Até meu eu lírico, nos ensaios
Como tenor cantava

Gritos desafinados eram entoados
A fim de alcançar meu perdido coração
Mas de nada valia tremendo esforço
Já que noutra freguesia batia desde então

Todo sentimento cabia naquele coração
De tanto bater, clareou a vala escura
De tanto irrigar, limpou
De tanto bombear, transformou-a num lindo caminho
Que todos haviam um dia de trilhar

E vendo de perto os feitos do meu coração
Como haveria eu de triste ficar?
Orgulhoso de uma parte de mim
Decidi aquele triste buraco fechar

Com as flores nascidas da antiga vala
Tapei sem hesitar a minha escuridão
Os sentimentos voltaram à tona
E logo encontrei em mim um novo coração.


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Promessas

Seguindo os grãozinhos de arroz deixados na terra molhada
O jovem forasteiro parecia voltar ao lugar onde tudo começou
Acompanhado por suas promessas cabisbaixas
Jurou mais uma vez que nunca mais.

Mais nunca devia se aventurar por terras próximas
Às distantes também não, pois tinha terminado o estoque de arroz
Desacompanhado por sua essência
Prometeu pela primeira vez que era o fim dos seus planos.

Mas como ele não era confiável
Enganou a si mesmo
E se sentindo o pior dos falsários inverteu a estrofe anterior
Seguiu viagem

Dessa vez escolheu o caminho que mais lhe convinha
Sem preocupação, sem grãos, sem limites
Parecia finalmente ter encontrado o seu caminho
E prometeu nunca mais se desviar dele.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

In Acabado

No meio de uma futura linda canção
o cantor se cala

Ao mesmo tempo o aspirante a Picasso
debruça sob o chão o seu cansado pincel
após um nada grande esforço

Como olhando a vida alheia
a bailarina pausa seu plié
que já não estava tão limpo assim

Para não se sentir tão sozinho
como o seu personagem
O ator deixa o palco antes do segundo ato
e se junta aos seus outros amigos pseudo artistas
E como eles frustra a platéia...
...durante toda a sua vida.

E o escritor pseudo inacaba o poema.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Sua Luz

Sentado à beira do fim da vida
O pobre homem lastimava
O quanto foi insossa tal existência

Pedrinhas despretensiosas no lago
Afundavam todas as memórias boas que ele ainda tinha

E tudo não era de agora
O declive ascendia a cada passo mal dado

Seus buracos colecionados no decorrer da vida
Tornaram-se o precipício amedrontador de hoje

Várias foram as chances dadas em forma de Luz
Diversos foram os “nãos” em tons de rejeição a qualquer Ajuda
...Divina, Celestial e Maternal.

A verdade é que suas mãos nunca foram bem usadas
Suas palmas nunca se conheceram
Sua Luz nunca foi acesa
Seu coração, irrigado por si.

Aquele que lhe deu as mãos e o coração
Nunca lhe negou a Luz
Sempre lhe procurou, lhe acenou, lhe sorriu
Mas você sempre apagava qualquer oportunidade

E agora,
O que fazer na escuridão de seus pensamentos?
Se há algum espaço para mudanças...
Uma lacuna de arrependimento...
Aproveite.

Pois qualquer fagulha de verdade pode incandescer um coração gélido
Uma centelha de amor pode sim, iluminar qualquer escuridão
Qualquer crença do bem pode aproximar as palmas de sua mão em tom de oração   
A Luz sempre estará acesa
Ilumine-se

Em pé à beira do recomeço da vida
O feliz homem sorria
Diante de tão deliciosa existência



sábado, 30 de julho de 2011

O Segredo de Toledo

O Sol raiou nublado num dia de festa.

As nuvens em formato de bolo e olhos-de-sogra enfeitavam o céu daquela cidade.

Parecia que o seu aniversário seria um sucesso.

O telefone, em seu primeiro toque do dia, revelava que algo estava estranho.

Toledo pulou da cama como um atleta de salto triplo em plena atividade Olímpica. Antes que desse o segundo toque, o aparelho foi calado pelos punhos treinados do aniversariante.

- Sim!

- Alô!

- Não, pode falar. O que deseja?

- Desejo que o seu aniversário seja um fiasco... Que o senhor tenha um péssimo dia... Também quero que você tenha muita tristeza, muito azar e que lhe falte saúde pelo resto de sua vida... Esses são os meus encarecidos votos para você, meu rapaz.

- Ah, obrigado... Pro senhor também. Abraços.

E voltou para a cama.

Realmente este dia prometia ser inesquecível. Após receber seus primeiros parabéns, Toledo terminava a soneca num ronco de felicidade.

Antes que o despertador atrasasse como em todos os dias, suas olheiras indicavam que preparar um bolo de aniversário durante a madrugada não fazia muito bem a saúde.

Numa encruzilhada próxima do seu trabalho o rapaz conseguiu todos os ingredientes para a guloseima.

De 7 dias era a vela que completava um dos momentos mais inesquecíveis que ele viveria...
...Se vivesse até o horário da festa.

E assim ele termina a primeira página de sua biografia deixando todos os leitores curiosos.



quarta-feira, 20 de julho de 2011

Movimentos

Enquanto a Terra se esquiva do sedentarismo todos os dias

Muitos não seguem o “pique” do planeta.

A cada rotação é comum alguns ficarem de ponta-cabeça

Esperando que os seus objetivos caiam do céu.


Como não caem assim tão facilmente

Ficam desolados na companhia da chuva,

Do granizo, da poeira e de algumas estrelas

Que uma vez ou outra mergulham sob o solo.


Há ainda aqueles que pegam carona na translação

Sonhando inertes que tudo gira em torno de seu centro

Pobres coitados da Síndrome Solar

Para realizarem seus sonhos muito há de garimpar


Não precisa ser tão criativo, original ou genial

Imitar o planeta já basta

Criar hábitos, disciplina e comprometimento

Pode ser a solução


Siga em frente

Sempre



terça-feira, 12 de julho de 2011

Moinho

Já devia ter sido moído feito cana
Até houve tentativa
Houve como
Mas nada foi feito

Despedaçar o passado não é assim tão fácil
Pedaços de impureza ainda resistem
Bagaços do que passou
Se juntam ao gosto do sumo que ainda é sentido

Já devia ter sido moído feito grão
Se transformado em qualquer coisa
Menos em sua própria obra-prima mais uma vez
Sem graça se transformar no que já era

Mas o passado ri
Diante da preocupação do presente
Em viver um futuro melhor.



quarta-feira, 6 de julho de 2011

O Colecionador

Nasceu

Conheceu o médico e a mãe 
Ensaiou um olá para as enfermeiras
Depois foi apresentado ao seu pai

A partir desses acontecimentos tão triviais
Percebeu o quanto era divertido conhecer

Professoras, colegas,
tios, primos e avós
Todos  cabiam em seu baú

Quando perguntado o que queria ser quando crescesse
Sem titubear dizia:
"Colecionador
... de pessoas"

 E seguiu em seu intento

Namoradas coloriam seu álbum
Amigos passavam como vento
Conhecidos se amontoavam em agendas antigas
Números de telefone adornavam a parede do seu quarto

Conhecia todos
Ninguém o conhecia

Envolvimentos profundos
[com duração máxima de 3 minutos]
eram os seus preferidos

Decidiu ser o maior dos colecionadores
Em diversos cursos ingressou
Novos professores, colegas, paqueras, fiscais, funcionários
Mais gente para ser adicionada à sua complicada planilha de pessoas.

E o álbum de figurinhas foi crescendo.
Atravessou fronteiras.
Até o Facebook ajudava na tal missão.
Que rapaz determinado!

O tempo passou.
Conheceu o chefe
O Sócio
A Noiva
O Padre
A Esposa
O Sogro
Os Netos
...

Conhecia todos
Ninguém o conhecia
Nem ele mesmo

E conheceu o coveiro.