segunda-feira, 11 de junho de 2012

Beija Flor


Feito de ímpeto
Seu voo era contínuo
E estrategicamente arquitetado
Pelo exagero

Estações estavam sujeitas a leis
Impostas por cada ano que passava
O tempo, sempre sujeito às suas intempéries,
Também aprendera que havia pra tudo, tempo.

Nem ligando, o beija flor fazia de cada momento, um encontro
De cada encontro, um encantamento
E a cada encanto, um novo bater de asas era ouvido.

Todo dia amanhecia igual para aquele colibri
Deveria, sim, voar entre as flores...
O seu trabalho fazer.
Mas não lembro de terem mandado
Diversos amores florescer.

Quando um dom lhe é dado
Sua responsabilidade cresce
Mas para o aventureiro Encanta Flor
Preocupações pessoais? Ah, não padece!
Sentimento não é lá coisa para aves!
Satisfazer todas as flores
Enquanto a última gota de néctar houver
Sempre foi e sempre será...
...O que o nosso colibri quer.

Num dia como outro qualquer
O Don Juan de asas contava flores
Que ainda não tinham recebido
O encantado toque do seu bico

Para a sua surpresa
Próximo de um lago, uma linda flor existia
Como haveria ela de ficar sem a sua companhia
Foi o pensamento do colibri, é claro.

Numa velocidade acima do permitido
O conquistador preparou seus poemas
Camões, Drummond, Quintana, Neruda e até Bilac
Afinal de contas, vai que seu néctar seja daqueles

Ledo engano
Falho voo
Pobre colibri
Beijado pelo destino

Dotada de beleza
Envolta por simplicidade
Destituída de orgulho
A frágil rosa apenas lhe sorriu...
O sorriso de toda uma vida.

Vida, que para o beija flor
Parecia começar agora
Nunca uma colisão resultou nisso

Bico pra quê? Asas para voar pra onde?
O seu lugar era ali.
Néctar? Apenas um alimentaria seu coração.

Sentiu-se maior.
Maduro.
Trocou de nome: Ama flor
E amou...
Na intensidade da batida de suas asas...
A rosa.

Bata suas asas na direção do único néctar que realmente importa.
Você será feliz!


terça-feira, 29 de maio de 2012

Sou Só Sorrisos

E me mandam calar,
Me mandam gritar,
Esbravejar então
Mas pra quê?
Sou só sorrisos...

Também sugerem que eu devo partir,
Destroçar, quebrar, me meter e se enfiar
Mas como? Eu não consigo
Só quero abraçar, beijar e reconhecer a todos
Como amigos

Já quiseram que eu destilasse, arremessasse
Amordaçasse e até obstruísse
Mas João não vai com os outros
Seria pura tolice

Acho que me fizeram assim
Meio louco, meio anjo
Meio homem, meio bobo

E até esqueceram talvez
De o tal laço do umbigo cortar
Mas digo de antemão
Foi sorrindo que aprendi a amar

Se uma dose de sorriso lhe faltar:

Corra, se entregue, deseje e peça
Se desnude, respire fundo, abstraia
Cative, Pisque, Fite, suspire mais fundo ainda
Caia, tropece, mas continue indo
Perfume-se, pinte, borde, abuse e se dê
Se possível , por inteira
Se não, um pouco mais da metade já basta.

Provoque um sorriso em alguém
E nunca mais essa dose lhe há de faltar

Quando fazemos alguém sorrir
Sorrimos juntos.





sábado, 21 de abril de 2012

Fatídico Dia

Louco para consumar o fatídico ato
O homem envolto por loucuras
Parecia desistir de cessar, mais uma vez, a sua vida
O ponto final trocara de lugar com as reticências...
...Após uma carta ter sido descoberta:


“Como ser conjugado no pretérito
Quando a dor é tão presente
Como tornar-se esquecido
Quando de você há muitas lembranças
Como seguir o meu caminho
Se já não há


O que há, o que restou, o que ficou
Não completa a décima parte do seu odiado encantado ser
Por obrigatoriedade de me ausentar de sua vida
Despeço-me inclusive do meu ser
Que pouco pude contemplar
Depois de conhecer você“ (Pildro Velasquez)


Desidratado diante da leitura
Esqueceu-se que era louco
E tratou de agir com bom senso em sua vida


Desistiu dos fatídicos momentos
Fatiou seus problemas em pedaços menores (de fácil resolução)
Enforcou o trabalho naquele dia
E finalmente matou toda a saudade que tinha dos seus...





quinta-feira, 12 de abril de 2012

Pra sonhar... Tem que acordar!

Certa manhã não acordaram na hora de costume
Ficaram mais tempo na cama
Tinham decidido sonhar...
...Até mais tarde

Fizeram com que todos lembrassem
Que não há hora para o sonho
Nem sempre ele vem juntinho ao ato de se deitar
Mas é necessário saber que para ele acontecer
Ah, você sempre tem que acordar.

Enquanto um deles mantinha o despertador ligado a cada sonho
O outro conseguia fazer com que a cada dia
Seu sonho acordasse cansado e mal dormido



Cheio de olheiras, o sonho deste sonhava acordado a cada dia.
Já o daquele fazia Cooper, pois sabia que precisava se manter muito bem cuidado.
Se encontraram eles e os seus sonhos (às vezes respectivos, às vezes não)
Um fazia alongamento já prevendo o longo caminho que o esperava
O outro bocejava a cada passo, só não quando cuidava das câimbras.

E prometeram seguir

Depois de alguns degraus
O atlético sonho estava intacto reverberando saúde e determinação
Enquanto o preguiçoso já tinha parado mais vezes...
...Do que o número de degraus existentes naquela escadaria decisiva.

Munido de preguiça, o sonho retardatário oscilava entre “desistente e quase desistente”
Mãos no degrau, joelho no chão, lágrimas nos olhos
Queda seguida de decepção
Desistir? Não!
Mesmo manco o sonho ainda rastejava
E conseguia impor alguma coisa naquele rapaz.

E a subida continuava...
O Sonho maratonista já nem era avistado
- Não adianta binóculo, oh curioso sonho quase desistente!

Uma das opções de quem já caiu
É subir de qualquer forma
Sim, os fins justificam os meios e até os inícios,
Pensava o esfomeado sonho.

Dotado de sua visão meramente “umbigal”
Decidiu se apossar de todos os atalhos daquela escadaria
Praticamente se rebatizou, pois ninguém mais o conhecia

Armações aqui, atalhos e retalhos acolá
A rasteira foi dada por um dos seus próprios pés
Patinou, se trombou e caiu.
E como caiu.

Parecia que a escadaria tinha trocado de lugar com um precipício
Mãos no degrau, joelho no chão, lágrimas nos olhos

Bradou aos sete ventos
E aos cinquenta degraus
Que não mais o conhecia
Que nem sequer sabia
O que estava fazendo ali

E foi só na última queda
Que ele percebeu
Que o chão não era quebrado,
 O piso não patinava,
Nem a escada era tão íngreme assim

E sim, a forma de pisar... Que não era adequada
O sonho... Que não foi bem cuidado
Quem o ajudou a perceber tudo isso?
O saudável sonho que já levantava seu merecido troféu
Lá no cume da escadaria

Com humildade ele lhe estendeu a mão
O levantou do chão
E o lembrou que é sempre tempo de recomeçar

Mas que pra sonhar, tem que acordar.


terça-feira, 27 de março de 2012

Triste Poema

Desconfio dos que não choram
Desacredito 
Se a queda livre é desaconselhada a uma gota
Qual caminho seguir?
Talvez o inverso.

Funcionando como balde, seus olhos inchavam a cada tropeço.
Cílios se esbaldavam no parque aquático, que deveria ser temporário
Encharcada de todas as tempestades dos últimos tempos,


A pequena moça não personificava tal tristeza
Ao contrário, mostrava-se quieta, sóbria, apática, fria.
De novo ao contrário, sou forçado a de opinião mudar:
Ela personificava, sim. 
A tristeza estava nela, impregnada. Era a própria.


Nem mesmo tal sentimento era tão triste quanto a moça.
Sua face parecia se cansar de esconder tamanha profundidade
Até a apatia cansou-se de ser obsoleta


Perigando transbordar o que nunca podia ser mostrado,
A moça tentava se esconder dela mesma.
Em mais um capítulo de esconde-esconde
Dessa vez, ela foi encontrada. Xeque-mate.

De rosto molhado e balbuciando algo
Pareceu aprender algo novo
E tornou-se um pouco mais humana naquela noite.



quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Em meu Picadeiro

Percorria as mais distantes cidades
Com seu circo nas costas
Cada pedaço habitado de terra
Trazia consigo a oportunidade
Daquele bobo palhaço mostrar o seu show.

Cada ida transformava-se em vinda
Cada estrada, num retorno
Diante dos escassos aplausos da vida
Fazia das mímicas, coração
E das incertezas, oração.

Chegando numa cidade qualquer
Sabia que tinha pouco tempo para tudo
Seu coração batia em contagem regressiva
Não podia sequer se apaixonar
Era um palhaço
Apenas fazia rir.

Enquanto organizava a maquiagem
Subia a lona para a apresentação de mais tarde
Ele não viajava tão sozinho assim
Malabarista, domador, mágico e contorcionista
Todos estavam com ele
E ao mesmo tempo estava sozinho
Tinha um picadeiro em seu coração
Divertia a todos
Doava toda a sua alegria
E pouco lhe restava depois da boa ação

Seu circo não era tão grande assim.
Ainda faltava
Não sabia o quê, mas faltava.

Numa dessas cidades que teimam em não estar por perto
Seu picadeiro coloriu-se
O vermelho de seu nariz infestava como que por completo o seu coração
Diante de tudo isso
Ele gargalhava
Ria
Afinal de contas... Palhaço!

Pela primeira vez na vida parecia levar algo a serio
Decidiu fincar sua lona num só lugar
Se apossou dos malabares para assustar outros pretendentes de sua amada
Aprendeu mágicas para diverti-la
E prometeu fazer dela a mais amada, a sua sagrada.

E com tantas promessas, com tantos juramentos
Esqueceu-se do seu circo.
Do seu picadeiro.
Lá podia ter tudo...
Mas faltava equilibrista

Palavras desequilibradas pendiam de um lado pro outro
Incertezas dominavam
Juramentos assustavam
Promessas já de nada valiam

E antes do término do espetáculo
O equilibrista cai
...Em seu picadeiro.


sábado, 10 de dezembro de 2011

Poesia

No início havia poesia
Tinturava a sua história no papel
Preenchia com linhas os momentos não vividos
E rasurava com força os amores que não vingaram
De tanto rasurar rompeu-se.

Por não entender o caminho que deveria seguir
Entendeu que deveria mudar
Aqui ou ali, sabe-se lá

Tapou os ouvidos para os conselhos amigos
Cegou-se diante de qualquer expressão artística
Calou a boca de todos com o seu silêncio

E quando todos já o achavam bem radical
Decidiu cometer uma atrocidade nunca antes imaginada
Matou aquela que tinha sido durante toda a sua vida
A sua única verdadeira amada:
A Poesia

Com um sangue nada quente partiu estrofes em vários pedaços
Até hoje resquícios são encontrados em terrenos não mais férteis
Amordaçou rimas e amarrou músicas
E ainda não satisfeito
Acabou com o sonho de pequenos versos
De um dia se tornarem lindos sonetos

Porém por onde entra a crueldade
Entra de tudo.
E num deslize das forças apoéticas
Entreaberta tinha ficado a porta do seu coração.

Sorridentes confraternizavam aqueles que tinham conseguido
Remover a poesia do nosso “ex poeta”
A música entoada na tal festa parecia se dilatar compulsivamente
Frestas, cantos, espaços, salas, porta...
...Entreaberta!

E num súbito reencontro com a magia da poesia
Parecia acordar de um sonho
Que beirava um grande pesadelo.

Por via das dúvidas:
Sinal da Cruz, terço, rezas...
Passes, meditação, mapa astral...
Caminho de Santiago, Jerusalém, Orixás...

Munido de energia, livros e Poesia
Percebeu que o seu caminho era a trilha do amor
E satisfeito com a descoberta
Voltou a compor.



sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Plastificada

Bem plastificada era como o jovem sedutor a desejava
Qualquer outro ar, que não o saído de seus pulmões
Intruso era considerado
Quando aereamente tentava dar o ar de sua graça

Ninguém por perto chegava
Longe estavam todos os pretendentes
Assim como o verdadeiro sentimento
Do seu plastificado amor

O jovem que tanto arquitetou
Parecia estar cada vez mais seduzido
Pela sua aprisionada paixão
Como prova de paciência e bondade

Retirava tal invólucro todas as manhãs
E curtia assim o seu estático momento de amar

Mas quando aromas vizinhos eram sentidos
Rapidamente em tardes transformavam-se as manhãs
E o seu amor voltava inerte ao seu estado bruto
Plastificado

De tanto respirar
Parecia sobreviver a cada dia
O seu amor
E num súbito desejo irrefreado
O jovem enamorado
Mais uma vez desnudou
Sem pudor

E aquele que seria o seu amor
Dessa vez mal era vista
Nem respirava
Já inexistia

Sumiu.


domingo, 6 de novembro de 2011

Retorcidos Sonhos

Descalça andava a confiança do forasteiro.

Numa corrida com a sorte
Para trás ficara
Antes mesmo do tiro inicial

Depois de tantas quedas
Pular barreiras era difícil
Transpor, impossível

Decidiu mudar de lado
Deu as mãos ao azar
E seguiu tortuosamente em linha reta
Até a última curva de sua vida.

Antes da derradeira virada
Lembrou-se do que havia catado
Em muitas das suas paradas:
Eram objetos, palavras e carinho.
Eram beijos, moedas e desejos.
Eram sonhos retorcidos, mas eram sonhos.

Estes dividiam espaço na poeira do seu bolso
De que matéria eram feitos?
Não se sabia.
Nunca se soube.
Mas sabe-se que sofriam de insônia. Isso sim.

Para o seu bem ainda estavam acordados
Mesmo depois de tudo que lhe ocorrera
Seus sonhos sofriam de insônia
Assim como a sua vontade
Como os seus desejos
Como o seu ímpeto que parecia deixar a latência de lado.

Eram retorcidos, empoeirados, quase esquecidos...
... Mas eram sonhos.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Menino

Era menino

O tempo envelhecia
As folhas caíam

Era menino

As ideias mudavam
Fotos amarelavam
E desde menino aprendera as verdades
Que o vento da infância nunca ousou levar

E agora, que já era um menino
Sabia a quem devia agradecer
A quem devia contemplar
A quem devia, pelo menos mais uma vez
Fitar com o seu olhar.

Mesmo acostumado a ver com os olhos das flores
Decidiu mais uma vez mergulhar em sua poesia.

O menino, que desde menino, aprendera a amar
Encantou-se, como se fosse a primeira vez
Por aquele tão velho luar.

Já estava horas naquela posição
Anos até se tornar um menino.
E depois de tanto sentir
Percebeu que o principal brilho não vinha dali.

A sua então adorada refletia
Contemplava o verdadeiro luar.
Curioso, o agora menino vestiu-se de destemido
E foi um outro luar procurar

Despiu-se da antiga roupa
logo que avistou ao longe um pequeno palco
Num ato de pura sensibilidade
Percebeu de onde brotara a sua inspiração
Nos passos da misteriosa lua
Que pintava de colorido o tablado com as suas sapatilhas.

A deslizar, o menino não tinha mais dúvidas
Era sob aquele luar que ele se sentia em casa
Sensação gostosa, íntima.
Tocou piano enquanto a sua lua dançava

Assim ficaram.
E juntos tornaram-se meninos.